Ah, se eu tivesse coragem de dizer tudo aquilo que eu penso! Eu falaria a vergonha que sinto de ser um cidadão que não consegue caminhar pelas ruas sem o temor de ser agredido, assaltado, ou até mesmo morto pelas mãos de bandidos reincidentes; que por força das leis brandas, continuam soltos e ameaçando nossa paz.
Se eu não fosse tão covarde eu exteriorizava o tamanho da minha repulsa para com alguns dos políticos mentirosos, que se valham da simplicidade e ignorância das pessoas mais simples, aproveitando-se do estômago vazio dos membros da classe miserável, lhes prometendo saciar a fome com cestas básicas em troca do singular voto para alcançar a qualquer custo, o tão cobiçado poder.
Eu queria ter hombridade para esbravejar aos quatro ventos que me arrependi amargamente de ter ajudado a eleger quem está no poder. Infelizmente eu não tenho coragem! Mas não afeta o meu brio admitir a imbecilidade de ter acreditado nas palavras mansas de um falso profeta, que prometera revolucionar o modo de governar.
Maldita covardia que me faz calar a voz! Que não permite retransmitir aos berros o que vejo e penso. Se eu fosse um ser humano digno e patriota, eu bradaria em alto e bom som: somos a nação do mundo que mais paga impostos! Cinco meses de trabalho por ano dos brasileiros são apenas para pagar tributos, e uma ínfima parte é revertida em favor daqueles que contribuíram. O transporte público nesse país é um desastre! E a educação, ainda não é a pior do mundo, mas galga a passos largos para o abismo.
Mas nem tudo é tristeza nessa nação tupiniquim. Os governantes estrategistas conhecem a fraqueza do povo, e sabem acariciar a moleira dos seus bebês quando eles choram de insatisfação, e o acalento vem com a bem articulada política do ‘Pão e Circo.’ Temos “o bolsa família” e somos o país do futebol! Seremos anfitriões de uma Copa do Mundo. Logo nós? O país do esgoto a céu aberto, dos cachorros de rua, educação precária, estradas esburacadas, extrema corrupção, injustiça social, insegurança, fome, sede…
Diariamente na televisão e internet se propagam novos escândalos envolvendo políticos safados que desviaram para suas contas bilhões de reais em verbas públicas, que receberam propina em troca de informações privilegiadas para beneficiar os seus, ou viajaram a passeio com o dinheiro público.
E no mesmo meio de comunicação, a notícia que mais um cidadão brasileiro morreu na fila de alguma emergência esperando o atendimento médico que não chegou a tempo, seres humanos sendo consultado no chão imundo e emporcalhado de algum posto de saúde caindo aos pedaços, genitoras a chorar com os filhos nos braços a implorar por um simples exame. E os governos e governantes (os mesmos que desviam verbas), se defendem dizendo não tem dinheiro suficiente para construir novos hospitais, ou estruturar os já existentes. Ah, se eu tivesse coragem de falar! Eu diria quanto é triste as pessoas escancararem as portas de suas casas reverenciando, com o espinhaço curvado, a entrada do conformismo e do fatalismo.
Escuto constantemente alguns dizerem: “As coisas são assim mesmo!” “É melhor a gente aceitar a desgraça de cabeça erguida porque estamos no fim do mundo!” Fico cabisbaixo e envergonhado, mas admito. Sou bom mesmo é na arte de ficar calado! Tudo o que penso se perderá nas curvas sinuosas da estrada de minha covarde resignação. Seu eu não fosse um medroso inveterado, me arriscaria a dizer duas coisas. 1) A euforia do futebol é efêmera e não paga as contas dos trabalhadores assalariados no final do mês; mesmo que a seleção brasileira seja hexacampeã mundial, isso não fará desse berço esplêndido um lugar melhor para se viver. 2) E, em ano de eleições: nenhuma alegria do mundo paga o triste preço de aturar mais quatro anos de desgraça.
Ah, se eu tivesse coragem de falar! Mas como eu sou um grande covarde, e você também, melhor ficarmos calados.

